QUANDO A INFÂNCIA É AVILTADA
Boxe tailandês para crianças

Rousseau, no século XVIII, foi o principal responsável pelo desenvolvimento
de uma revolução que teve influência fundamental na pedagogia moderna e
contemporânea. Sua concepção educacional operou uma mudança decisiva
em todos os parâmetros pedagógicos e na psicologia infantil, ao colocar a criança no centro de atenção de todo o processo educacional. Ao contrário do que se pensava até então, a criança não é um homem em miniatura, mas um ser que tem necessidades específicas e que variam de acordo com a idade. Ou seja, suas capacidades – mentais, físicas, emocionais – se desenvolvem gradativamente em um processo integrado de acordo
com o desenvolvimento orgânico e os estímulos sociais. Os adultos, e os educadores em especial, deveriam agir em conformidade com essas necessidades. A prática infantil do Muay Thai ou boxe tailandês vai contra tudo isso. Na Inglaterra, crianças de 3 e 4 anos estão sendo estimuladas e, em alguns casos, obrigadas a lutar em competições organizadas especialmente para crianças. Isso está se tornando uma febre e já há 500
academias dessa modalidade registradas nesse país. A expansão dessa prática parece ter força mundial e tal modismo já chegou ao Brasil.
Pais de praticantes argumentam que a luta fortalece o indivíduo física e mentalmente. Segundo essas pessoas, o treino e a luta favorecem o crescimento e estimulam a independência da criança. Essas idéias são falaciosas e não passam de justificativas de ações quase criminosas
dos pais em relação aos filhos. Em primeiro lugar, ao obrigar ou ao estimular a prática infantil do boxe tailandês, os pais não estão preocupados
com o desenvolvimento dos filhos. Eles visam realizar desejos a partir de imposição feita a seres ainda indefesos. Provavelmente há muitos problemas emocionais e psíquicos que provocam essa conduta dos pais, mas isso nada tem a ver com o desenvolvimento dos filhos.
Em segundo lugar, o risco de prejuízo para a criança é muito grande. Do
ponto de vista orgânico-funcional, além das lesões decorrentes dessa prática, o indivíduo poderá apresentar seqüelas que o acompanharão para o resto da vida. Por exemplo, golpes freqüentes na cabeça, mesmo quando há proteção, podem ocasionar coágulos no cérebro e anomalias que aparecerão na vida adulta. Ou lesões definitivas, gravíssimas, na coluna podem advir de chutes, golpes muito utilizados por essa modalidade de boxe. Do ponto de vista psíquico e emocional, tal prática está longe de ser algo adequado à infância. Não é o equilíbrio emocional que é estimulado, mas a agressividade em relação a outro ser humano. A pressão
existente nas competições, na maioria dos casos, prejudica e não favorece a auto-estima da criança. Não é raro o choro de participantes antes e depois da luta, sintoma de aviltamento da infância. Pode-se afirmar que todos esses riscos estão presentes em esportes de confronto, praticados por adultos, aceitos e estimulados pela sociedade. Essa argumentação
ressalta um outro tipo de problema. Trata-se de um problema ético. Um adulto pode optar equivocadamente por correr riscos contra a sua integridade física. Mas um adulto não pode impor – essa é a palavra – a uma
criança, um ser ainda dependente, uma prática que pode comprometer negativamente a sua trajetória de vida. Dito de outra maneira, não é a criança que decide, não é ela que opta, pois ela não tem maturidade psíquica para isso. O adulto impõe o risco a um ser desprotegido. Que sociedade é essa que não cuida de suas crianças?

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