As medalhas que não vieram podem ser as nossas melhores conquistas
O FRACO DESEMPENHO ESPORTIVO DENUNCIA A FALTA DE UMA POLÍTICA ESPORTIVA ADEQUADA.

Em meio a tanta emoção dos Jogos de Pequim, no palco onde foram superados sucessivamente índices e recordes, onde a plasticidade do corpo humano atingiu níveis de beleza indescritíveis e a organização foi quase perfeita, era difícil ter uma análise aguçada do desempenho brasileiro. Agora, passado tanto tempo da realização dos Jogos, podese fazer um balanço mais equilibrado. Foram conquistadas 15 medalhas: 3 de ouro, 4 de prata e 8 de bronze. Isso nos colocou no 23o lugar, entre duas centenas de países participantes. Isso é bom ou ruim? Provavelmente, você dirá que é péssimo. Qual é o critério, para tal consideração? Talvez a dimensão continental do nosso país, os quase 190 milhões de habitantes, o fato de o Brasil estar entre as maiores economias do mundo, ou ainda ter levado a maior delegação brasileira da história dos Jogos. Em relação ao número de conquistas, todos esses dados mostrariam o quão minguado foi o nosso desempenho. Ainda mais se olharmos alguns países que ficaram à nossa frente: Hungria, Jamaica, Quênia e Etiópia.
Tal avaliação é muito reducionista. Ela se foca única e exclusivamente no número de medalhas conquistadas, em especial nas medalhas de ouro. Imaginemos por um instante que os nossos atletas potencialmente capazes de conquistar a vitória tivessem tido êxito. Suponhamos que Robert Scheidt (iatismo), Fabiana Murer (salto com vara), João Derly (judô), Tiago Camilo (judô), Luciano Corrêa (judô), Diego Hypólito (ginástica), Jade Barbosa (ginástica), Rodrigo Pessoa (hipismo), o vôlei de praia masculino e o feminino, e o vôlei de quadra masculino tivessem vencido. Nós teríamos conquistado por volta de 14 medalhas de ouro e o 7o lugar na classificação geral. O que isso significaria? Um ótimo desempenho nas Olimpíadas, mas se trataria de um avanço na nossa organização esportiva? Não. Veja bem: a vitória de cada um desses atletas era possível e uma combinação de resultados positivos era muito difícil, mas, plausível. Um resultado favorável no quadro de medalhas escamotearia a realidade esportiva brasileira. As medalhas que não vieram puseram a nu a falta de organização e de estrutura do esporte nacional, ainda que muita gente trabalhe cotidianamente para o seu desenvolvimento.

ESPORTE E DESENVOLVIMENTO

As Olimpíadas devem ser entendidas como uma manifestação do esporte. Um momento plástico, estético do alto rendimento esportivo. Uma expressão da capacidade-limite da performance humana em determinado período. Embora importantes, as Olimpíadas são uma parte da criação humana que chamamos esporte. Um país deve ter uma política esportiva para o conjunto de seus cidadãos. As pessoas devem ter acesso às mais diversas práticas esportivas que visam o lazer, o desenvolvimento motor e cognitivo, a socialização, a saúde e o aperfeiçoamento de qualidades morais, como, por exemplo, o respeito ao próximo. Isso acontece no país?
O acesso à prática esportiva é massivo e para todas as idades?
O esporte como prática de desenvolvimento do ser humano não pode ser dissociado da educação. Educação e esporte devem andar juntos. Qualquer plano de desenvolvimento esportivo sério deveria se basear na integração entre os níveis de ensino: fundamental, médio e superior. O que significa implementar projetos político-esportivos de 25, 30, 40 anos. Existe isso no Brasil?
Geralmente, uma vez estabelecida uma política esportiva ampla, de qualidade, educacional e integrativa, o auge do desempenho esportivo se verifica no período da idade universitária, entre 18 e 28 anos – com variações entre as modalidades esportivas e exceções individuais de atletas. Por esse motivo, os países que buscam alto desempenho investem no esporte universitário, como complemento do desenvolvimento do atleta (polimento), que veio se formando desde sua infância. Assim, as universidades em conjunto com o governo, por meio de programas e bolsas de estudo, possibilitam que o estudante-atleta apenas estude e treine. Há isso no país?
Se as respostas a essas perguntas forem negativas, talvez o nosso desempenho não tenha sido tão ruim em relação à nossa falta de estrutura esportiva.

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