A indústria da angústia
SENSAÇÃO É PROVOCADA PARA ESTIMULAR CONSUMO DESENFREADO

É simples entender o ciclo. Criase um modelo estético, um ideal de corpo, um padrão de beleza que varia com o tempo, mas que em determinado momento é a referência, o alvo a alcançar. A mídia divulga incessantemente esse modelo e aos poucos atingi-lo passa a ser objetivo de todos ou de quase todos. Criam-se desejos de acordo com o interesse do mercado.
Manipulam-se vontades. As pessoas se mobilizam em busca do modelo ideal, consumindo. Consome-se de tudo, de atividades físicas a cirurgias plásticas, de roupa de grife a corte de cabelo da moda. Mas o terceiro momento do ciclo é a frustração. Por mais que se invista, nunca se chega ao ideal, exatamente porque ele é um ideal, ou seja, ele existe só como idéia. A angústia, por sua vez, provoca nova onda de consumo, para se chegar mais perto do modelo ideal. Assim, do modelo ao consumo, do consumo à frustração, da frustração à nova onda de consumo, a indústria da angústia
vai se desenvolvendo. No recente levantamento sobre perfil do jovem brasileiro feito pelo Jornal Folha de S.Paulo, constatou-se, entre outras coisas, que as pessoas estão cada vez mais descontentes com a aparência. A insatisfação aumentou apesar dos recursos médicos, apesar das drogas que interferem no metabolismo corporal, apesar das cirurgias, apesar dos silicones nos seios, apesar da bunda turbinada, apesar de tudo isso, progride a insatisfação com o corpo ou com partes do corpo.
Nosso descontentamento pode ser por causa do nosso nariz ou da nossa
boca. Muito freqüentemente a barriga, o peito e a bunda são os culpados pela nossa insônia. Não somos felizes com o nosso corpo, então, consumimos. A indústria da angústia agradece. É claro que modelo de beleza não tem nada a ver com saúde, com o corpo real. Basta saber da existência da bulimia ou da anorexia nervosa, que muitas vezes, senão provocadas, são estimuladas pelo atual corpo ideal, que nos excita à magreza, à esqualidez. Basta saber sobre o número crescente de jovens que tomam anabolizantes sem nenhum critério médico, para atingir o corpo-ideal-sarado. Basta conhecer os malefícios do sol ou do bronzeamento artificial aos quais tantos se submetem, para chegar perto do modelo. O corpo ideal é magro, sarado e bronzeado. Além disso, o corpo ideal se esquarteja em modelos de partes do corpo: a boca ideal, a perna ideal, a bunda ideal, o bíceps ideal, a barriga ideal...
Não dá para ser feliz diante de tanta exigência. O corpo real é submetido a um verdadeiro massacre. Ele é subjugado em nome de interesses alheios a ele. O corpo real é dominado pelo corpo ideal. É possível fugir dessa situação? Podemos ser mais felizes com o nosso corpo? É difícil, mas a resposta é sim. Não é possível fugir dos valores de uma sociedade, se você vive nela. Mas é possível questionar as padronizações, pelo menos amenizando a nossa busca em alcançar modelos sociais, difundidos pelas
mídias. É possível refletir sobre o que é e o que não é saudável em relação às ações humanas massificadas. É possível até mesmo refletir sobre as nossas angústias e sobre a manipulação dos nossos desejos pela propaganda. O ser humano é um bicho que se diferencia dos outros porque pode projetar a sua vida, pode agir racionalmente em benefício próprio. Esse é um dos aspectos positivos da capacidade racional humana.
Então, reflitamos sobre nossa vida, nosso corpo e nossa busca de felicidade.

IR PARA O SUMÁRIO DESTA EDIÇÃO

PÁGINA INICIAL