Entrevista de Apolinário Rebelo, diretor do Ministério do Esporte

Unesporte - A juventude brasileira, aproximadamente 20% de toda população do país, tem inúmeras demandas sociais, dificuldades e necessidades. Qual é a relação do esporte com essas demandas?
Apolinário Rebelo - A prática esportiva deve ser um espaço destinado à saúde física e mental de todos os jovens em suas várias dimensões: o esporte e lazer, o esporte educacional e mesmo o esporte de competição.
O esporte no Brasil entrou em outra fase com a criação do Ministério do Esporte, em 2003. A partir daí um conjunto de novas iniciativas se somaram e renovaram as ações que vinham sendo desenvolvidas. Mas surgiram a Lei de Incentivo ao Esporte, A Lei que destina recursos ao esporte olímpico, a Bolsa Atleta e a Timemania. No esporte educacional, surgiu e se consolidou o Programa Segundo Tempo. Antes destinado às crianças nem área de risco social, esse Programa agora está indo para as escolas de ensino médio, universidades, jovens com deficiências, unidades sócioeducativas, indígenas, quilombolas, jovens trabalhadores industriais, entre outros seguimentos juvenis.

Quais devem ser as principais diretrizes políticas esportivas para a juventude brasileira?
O esforço é a universalização do esporte para juventude. Mas isso exige ainda muito mais recursos, consolidação da legislação para regular e dar permanências a essas ações e capacitação dos executores dos programas
na ponta do sistema. Um desafio importante é a construção e ou reforma
da infra-estrutura existente. Ainda existe uma demanda muito grande por quadras esportivas e espaços para prática esportiva nas escolas e nas cidades. Os equipamentos existentes, salvo exceções, têm carências,
precisam de reparos e são distribuídos de forma ainda injusta. Há locais que concentram estruturas e outros sem estrutura nenhuma. Então, o esforço deve ser o de universalizar, valorizando o que já existe, mas vendo que o desafio é muito maior já que os programas e os recursos atuais são
insuficientes para promover em maior escala a inclusão esportiva dos brasileiros.

Em relação ao esporte universitário, quais são os principais problemas e o que deve ser feito?
O esporte universitário ocorre num estágio da vida juvenil no qual a opção por uma modalidade já está bastante definida. Quem compete já está maduro para ação. Mas a maioria dos estudantes enfrenta jornadas de trabalho e de estudos que tendem a afastá-los da prática esportiva. O fim da
educação física nos currículos universitários agravou mais essa situação.
Assim o desafio do Ministério do Esporte é construir e ampliar parcerias com as universidades, a CBDU, a UNE, as atléticas e com isso enfrentar os limites de infraestrutura, recursos e de eventos. As olimpíadas universitárias,
os torneios, os circuitos,os jogos, os eventos internacionais promovidos pelas entidades devem contar com o apoio do Ministério, das Instituições de Ensino Superior e mesmo dos governos locais para levar o esporte universitário a outro patamar.

Qual é a relação entre esporte e educação?
É uma relação fundamental e indissociável. A educação corporal e a cultura física são elementos da cultura humana e de um valor fundamental para a formação da cidadania. A escola tem um papel fundamental nesse processo, fornecendo conhecimentos técnicos, promovendo a iniciação esportiva, ensinando os movimentos, educando o corpo e alma, para que
a atividade física seja, em última instância, uma necessidade fisiológica,
mesmo que historicamente sofra a influência dos elementos
culturais. A escola deve ser o eixo condutor desse processo a ser complementado pelos clubes, praças, academias, centros esportivos, entre
outros espaços de lazer, integração e diversão.

Quando se fala em trabalho esportivo de base, há necessidade de uma concepção integradora dos vários níveis de ensino. Como isso pode ser atingido?
Deve haver uma relação de equilíbrio entre a universalização do esporte, a democratização do acesso ao esporte e a realização do esporte de competição. O alto rendimento tem seus objetivos, regras e eventos definidos e não deve negar o esporte educacional, bem como esse não pode sufocar o desejo dos que buscam no esporte a conquista de títulos, medalhas, glória e mesmo de sobrevivência profissional.
Cabe ao Estado, aos gestores públicos incentivarem essas diversas
manifestações.

O esporte contemporâneo é marcado pela “espetacularização”.
Os jogadores e as competições de alto rendimento são veiculados nas mídias como modelos esportivos. Esses modelos influenciam a prática
esportiva em todos os níveis. Como fazer para que a competição exacerbada
não anule os aspectos mais positivos da prática esportiva?
A mercantilização ocupa, como regra, todas as áreas das manifestações culturais, sociais e esportivas. É um fenômeno moderno e deve ser compreendido em parte pela insuficiência dos Estados em suprir as demandas de recursos. O investimento privado procura, de forma legítima, divulgar suas marcas. Isso também ajuda a democratizar o acesso ao
esporte, embora persista um desequilíbrio no acesso a essas fontes de incentivo e financiamento. Não vejo negativamente esse processo. Acho que os excessos devem ser regulados em busca de um equilíbrio no qual o atleta tenha seu trabalho e atividade garantida e valorizada e a empresa
ou instituição tenha seu espaço de publicidade e divulgação garantidos.
Os aspectos éticos, legais e de saúde pública devem ser ajustados por normas democraticamente construídas.

Há um setor crescente da juventude esportiva que consome drogas para
melhorar o desempenho. As vezes, as conseqüências dessa utilização são graves: lesões, seqüelas e morte. Que tipo de política a Secretaria Nacional de Esporte Educacional desenvolve em relação a isso?

O envolvimento juvenil com as drogas é uma coisa muito delicada. Parte disso está na base do sistema sócio, econômico e político em que vivemos. A vida nas grandes cidades, os desencontros as frustrações, a ausência de perspectivas de realização social e profissional, a desagregação familiar, as influências culturais, a curiosidade, o sentimento de pertencimento são fatores que influenciam. As mortes violentas por acidentes de trânsito, armas e outros eventos exigem uma maior interação do Estado, da escola, da família, de toda a sociedade, procurando formas e caminhos para assegurar à juventude seus direitos e entendê-la como uma fase de transição, contestação, rebeldia e de afirmação e negação de valores de cada época. Em relação ao doping, é preciso compreender que o esporte não é apenas bons resultados, mas o resultado com ética. Esse é um dos pressupostos estabelecidos nos programas, nos projetos e nas ações que o Ministério formula e fomenta. O Ministério participa ativamente no encaminhamento da Convenção Internacional contra o doping no esporte, aprovada pela Unesco em 2005. Essa convenção está incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro por meio do Decreto Legislativo no 306/2007.

Quais são as perspectivas do esporte nacional para os próximos anos?
O Brasil recebeu o Pan;enviou a maior delegação da história às Olimpíadas
de Pequim; recebe em 2014 a Copa do Mundo de Futebol; e luta para conquistar as Olimpíadas de 2016. Tem o Ministério do Esporte e um
governo federal que buscam articular e democratizar o esporte nacional e integrar mais ainda o Brasil esportivo ao mundo esportivo. É um futuro promissor, cheio de desafios, mas que hoje encontra vazão e espaço nos
diversos meios que o país possui e deve construir para atingir esses objetivos.

Há mais alguma coisa que gostaria de dizer aos leitores da Revista Unesporte?
No final do ano ocorre, em Porto Alegre, o I Congresso Internacional de Esporte Educacional. Faremos um grande debate sobre os novos rumos do esporte educacional no Brasil e conheceremos melhor experiências de
fora. Em novembro de 2009, teremos a III Conferência Nacional de Esporte. É importante a participação de todas as pessoas ligadas ao esporte nas etapas municipais, estaduais e na nacional deste evento. Por fim agradeço a
oportunidade e espero que a UNESPORTE cresça e contribua cada vez mais com a democratização do esporte no país.

 

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