Gato universitário, que bicho é esse?
ADULTERAÇÃO DA IDADE E INSCRIÇÃO SEM FREQÜÊNCIA SÃO FORMAS DE PARTICIPAÇÃO IRREGULAR DE ATLETAS
Por Glenda Carqueijo

Um dia antes da decisão do futsal feminino dos Jogos Universitários de Comunicação e Artes (JUCA) de 2005, o técnico Alexandre Oliveira, da FAAP, foi atrás do técnico da equipe da Belas Artes, e ameaçou: “Eu sei que tem jogadora no seu time que não estuda na faculdade. Ela é jogadora de campo e defende um clube. Ela é “gato”, não pode jogar”. Sem ter para onde correr, a Belas Artes se rendeu. Não entrou em quadra. Eo título ficou com a Faap, que venceu por W.O.
A história contada acima é apenas um exemplo dentre vários que ocorrem todos os anos com atletas universitários. São poucos os que têm coragem como Alexandre, de denunciar. Hoje, o “gato” está tão presente nas ligas universitárias quanto o doping nos esportes amadores e profissionais. Há vários tipos de gato, aquele que adultera sua idade para competir em categorias menores; aquele que não está matriculado nem freqüentando a instituição de ensino; e aquele que se matricula apenas para jogar, sem nunca ter entrado em sala de aula.
Para evitar dor de cabeça, a Liga do JUCA (LAACA) fez, esse ano pela primeira vez, o “antigato”, uma espécie de antidoping dos gatos. Thiago Botana, um dos integrantes da Liga, e presidente da Atlética de Comunicação da PUC-SP, diz que o teste foi implementado antes do início da competição.
No lugar de um simples comprovante de matrícula e uma carteira de identidade, foi exigida a matrícula com firma reconhecida. Ninguém foi pego. “Tínhamos uma suspeita grande de uma pessoa que treinava com o time, mas não estava cursando nada. O atleta era de clube, e quando decidimos fazer o antigato, ele sumiu. A justificativa daquela faculdade é que ele só treinava para completar a equipe”, acrescenta Botana.
Thiago Afonso de André, que já foi presidente da ECA (Escola de Comunicação e Arte) da USP e presidente da Liga do JUCA, há dois anos, acha impossível de se evitar o gato. “Muitas faculdades são coniventes”, afirma Thiago. Ele ainda lembra de um caso ocorrido no JUCA com uma aluna que já era formada e estava inscrita para defender um time de futsal. A faculdade foi alertada, e a garota foi impedida de jogar.
A punição em casos de gato é a expulsão da competição. E foi isso que aconteceu com a respeitada Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), que está fora do JUCA há muitos anos. Após ser campeã geral no JUCA, em 2000, vieram à tona alguns casos de gato, e a ESPM foi punida. O título daquele ano foi para o Mackenzie.
A ESPM beneficiava-se por ter uma atlética unificada dos cursos de Administração e Comunicação, e muitos alunos de Propaganda e Marketing, por exemplo, competiam nas Economíadas, enquanto alunos de Administração queriam competir no JUCA. Foi um duro golpe para a tradicional faculdade, que estava acostumada a levar quase três mil atletas para os Jogos.
Hoje, o principal gato inserido nas universidades é o aluno que está matriculado, mas não freqüenta as aulas. “É o que chamamos de gato legal. A pessoa é aprovada no vestibular, faz a matrícula do curso, e em seguida tranca a matrícula”, explica Botana, da PUC-SP.
Algumas soluções que podem ser adotadas para diminuir a presença de gatos são apontadas pelos profissionais das universidades, como o pedido de boleto bancário. No caso da USP, por exemplo, isso já não seria possível, já que é uma escola pública. Outra medida, segundo os dirigentes das atléticas, é fiscalizar a freqüência dos alunos, além da apresentação do histórico escolar. “Um atestado de freqüência ajuda. Mas a gente tem de pensar que muitos atletas que são de clubes podem alegar, por exemplo, que estão viajando para competir e, por isso, não vão ao curso”, explica Roberto Toledo, diretor-geral de esportes da UNIP.
Seria o caso então de a Federação Universitária Paulista de Esportes (FUPE) fiscalizar essas universidades? Toledo acha difícil. “A FUPE alega que não tem estrutura para fazer esse controle”, acrescenta Toledo.
Com o avanço da tecnologia, hoje em dia há muitos recursos para adulterar documentos. Ficou mais fácil criar até mesmo uma lista fictícia de alunos. “Com o Photoshop, por exemplo, dá para fazer isso. É difícil diferenciar o documento verdadeiro do adulterado”, diz Thiago André, ex-USP.
O gato nas universidades vai muito além do comprovante de matrícula, atestado de freqüência e boleto bancário. “É uma questão ética. Se a faculdade estiver disposta a encobrir o aluno, ela vai fazer isso. Liga nenhuma vai ter poder para julgar isso ou comprar briga. É aquela velha história, do ladrão que quer assaltar sua casa. Se você colocar mais cadeados, não será a quantidade de cadeados que vai impedir o assalto. Se ele quiser assaltar, ele vai assaltar”, pondera Thiago de Afonso André.

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