Walter Feldman
SECRETÁRIO FALA SOBRE AS PERSPECTIVAS DO ESPORTE UNIVERSITÁRIO
Por Glenda Carqueijo

Há um ano e dois meses, Walter Feldman, de 54 anos, assumiu o cargo de secretário municipal de esportes, e ficou “assustado” com o cenário universitário que encontrou. “A reclamação de todas as entidades universitárias é que as coisas estão muito ruins”, afirma Feldman.
A principal queixa dos estudantes, segundo ele, diz respeito à Federação Universitária Paulista de Esportes (FUPE).
Diante da insatisfação, Feldman se reuniu com alguns universitários e apoiou a criação da Associação Brasileira do Esporte Educacional (Abrade), que reúne estudantes dos ensinos fundamental, médio e universitário.
O terreno da Prefeitura na Zona Norte, que um dia já foi ocupado pela FUPE, está sendo recuperado pela Secretaria de Esportes, Lazer e Recreação da Cidade de São Paulo. Foram injetados R$150 mil para a reforma dos vestiários, ginásios e do campo de futebol. As obras começaram em janeiro. Os recursos também virão em parceria com a iniciativa privada.
No local, funcionará o Centro de Excelência do Esporte Educacional, que atenderá também a população do conjunto habitacional vizinho ao terreno, além de crianças de escolas públicas.
Segundo levantamento da Secretaria, São Paulo tem hoje 170 instituições de ensino superior e 470 mil estudantes universitários. Para atender toda essa demanda, a Prefeitura lançou os Jogos Universitários Paulistanos, em 5 de junho de 2008. O campeonato, que começará em 9 de agosto, será dividido em dois grupos. O primeiro será o das Associações Atléticas Acadêmicas e o segundo das Instituições de Ensino Superior.
Apesar de diversos contatos feitos pela Unesporte, Tarso Ricardo Silva Olinto, presidente da FUPE, não quis se posicionar em relação às críticas.

Unesporte - Por que o senhor resolveu atuar no cenário do esporte universitário?
Walter Feldman - Estou aqui (Secretaria de Esportes, Lazer e Recreação da Cidade de São Paulo) há um ano e dois meses constatando onde estão os furos do esporte na cidade de São Paulo, onde estão os eventuais potenciais de crescimento e como que a gente pode criar um sistema de programação pública na área de esporte, que pode nos levar a um patamar diferenciado em relação ao que nós encontramos.

O que o senhor constatou?
Não há um sistema público de esportes na cidade, não há políticas sociais ligadas ao esporte, não há uma integração do esporte com a saúde, educação, cultura, promoção social. E o esporte é realizado em São Paulo e no Brasil no seu caráter empresarial e comercial do futebol. Não há uma programação permanente, estruturada, que tenha a escola fundamental, como sua base, e tem o esporte universitário como seu ápice de ação permanente, que pode levar, inclusive, tanto a escola fundamental quanto a escola universitária, ter celeiros de atletas de alto rendimento.

Como fazer esse sistema funcionar por aqui?
Estamos trabalhando muito para a recuperação dos equipamentos públicos para criação da oportunidade de esporte para a comunidade, criando o programa social clube-escola, que é a criança da escola pública tendo o complemento escolar com nossos equipamentos esportivos, que estavam deteriorados e mal-usados até então. Uma boa integração com a rede escolar pública e privada. Depois, fomos para outra ponta, que estava faltando, que é a do esporte universitário. Pudemos constatar que houve uma grande queda em relação ao passado de seu papel e da empolgação que o esporte universitário já teve.

De que maneira os universitários foram ouvidos?
Convidei oito instituições universitárias que, na minha avaliação, tinham uma ligação maior com o esporte. Os estudantes têm uma enorme vontade de retomar o esporte universitário com o apoio do setor público, uma disposição enorme de fazer um grande movimento. De repente, no ano passado, já estávamos lançando o projeto da retomada do esporte universitário, em um hotel na zona norte da cidade, próximo ao antigo terreno da FUPE, com 100 assinaturas apoiando essa retomada. Hoje, mais de 50 instituições participam desse movimento, que nos estimulou a fazer o seguinte: retomar o terreno da FUPE, e colocá-lo à disposição do esporte universitário. Mas, não à disposição da FUPE. O histórico da FUPE, para nós, é ruim.

Houve alguma conversa com a FUPE?
Pelo contrário. Porque a relação do Poder Público com a FUPE é uma relação de caráter investigativo, de inquérito. Nós retomamos o prédio e o espaço da FUPE, por causa de uma reintegração de caráter jurídico. Lá, não foram realizadas as contrapartidas, o espaço foi abandonado, depredado, por ações criminosas. (...) Temos uma relação institucional “atritada” com a FUPE, mas temos também afirmação do setor universitário de que, hoje, a FUPE não atende à necessidade de crescimento do setor.

O senhor não teme um embate entre Abrade e Cbdu/FUPE?
Nós apoiamos a Abrade. Não acredito que haja um embate. A reclamação de todas as entidades universitárias é que as coisas estão muito ruins. A FUPE tem um controle, uma relação autoritária com as universidades, que não corresponde à democracia nem ao mundo universitário, que é rebelde, contestador. A FUPE ameaçou as entidades universitárias que participassem dos Jogos Universitários Paulistanos. Sabe qual foi a reação das universidades? Todo mundo riu.

Qual foi seu conselho aos estudantes?
Eu disse: Participem de todas as atividades da FUPE. Mas eles não querem. Tem contradição maior do que uma manifestação autoritária dessa no mundo estudantil? (...) O presidente da FUPE está há 12 anos no cargo. Não existe manifestação mais clara de tomada do poder. Estão endividados, tiveram problema de gestão.

E o que será feito no terreno que um dia foi ocupado pela FUPE?
Já estão sendo injetados R$ 150 mil (da Secretaria Municipal de Esportes). O investimento que for necessário, nós vamos colocar lá, para pequenas intervenções, para projetos médios e maiores, e pensando até num local alternativo e complementar, que é o Clube Tietê. (...) Queremos transformar o Tietê em um clube fortemente universitário. (...) Trabalho que vamos fazer, inclusive, com o apoio da mídia, para transmitir os jogos. Nos locais onde vamos atuar, vai ter clube-escola, de tal forma que as universidades vão nos ajudar na implantação do programa social para crianças do ensino fundamental, criando um círculo virtuoso para aquelas crianças que tiverem talento conquistarem vagas nas universidades.

A recuperação do terreno terá parceria da iniciativa privada?
A família Baumgart está interessada. (...) O Center Norte também vai nos ajudar. As universidades vão contribuir com o que podem, com o know-how de conhecimento nas áreas de arquitetura, administração e economia.

Onde serão realizados os jogos?
Nós temos uma rede grande de equipamentos. Tudo vai depender da organização interna dos jogos, que a gente quer que tenha gestão das próprias universidades.

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